08 Aug

Elas são evangélicas, congregam em diferentes denominações, são feministas e têm compreensões semelhantes sobre a Bíblia. A seguir vamos conhecer um pouco da história de cada uma, como e o que as levaram ao feminismo. Elas falaram ao fórum Cristãos Progressistas por e-mail de diferentes localidades do Brasil. Leia e compartilhe nas redes sociais.

Nancy Cardoso é pastora metodista e há 34 anos atua na Comissão Pastoral. Nancy observa que, em algumas igrejas evangélicas, “seus líderes não vivem a Palavra de Deus, mas sim vivem da palavra de patricarcas e hierarcas, de seus interesses e projetos políticos”. Este é um problema que atinge várias denominações, segundo a pastora metodista. Nelas, os donos da verdade “interrompem a livre interpretação das Escrituras, dando maior poder e domínio a eles”. Nestas condições, a mulher é colocada em segundo plano, escamoteada.

Mas o que a levou ao feminismo? Nancy diz ter sido levada ao feminismo “após acompanhar a história de sua mãe e irmãs que, apesar de se dedicarem as atividades da Igreja, não encontravam espaço na Teologia e na Administração”. Ao acompanhar a desigualdade de gêneros em outros contextos, como no trabalho e na política, Nancy passou a perceber as limitações impostas à mulher, a forma cruel como é tratada.

Sobre a importância do feminismo no contexto evangélico, Nancy observa que “não conseguiríamos sequer anunciar a proposta do Evangelho, que é de uma comunidade de iguais”. Segundo ela, “o feminismo reafirma a ideia de que as mulheres são gente, de que podem ser diferentes, mas não inferiores”. Ao mesmo tempo, “o feminismo é uma vivência histórica que nos ajuda a superar o pecado do machismo na Igreja e fora dela, e construir relações de justiça, bondade e igualdade”.

Helivete Ribeiro

Helivete Ribeiro congrega na Primeira Igreja Batista de Butrins (Olinda/PE). Ribeiro diz acreditar na Bíblia, que ela nos traz a Palavra de Deus. A princípio, seu envolvimento com o feminismo ocorreu por desejar um mundo de paz e justiça, onde a dignidade humana fosse respeitada. Segundo ela, essa paz não estava dentro do seu coração quando pensava em tanta injustiça sofrida pelas mulheres, em sua comunidade de fé. “Foram elas que me abriram os olhos. Suas dores e queixas diárias me despertaram a buscar um mundo melhor para elas.”

Para Ribeiro, o feminismo é um movimento de luta. “A importância do feminismo tem sua relevância pelas suas lutas. Luta pela igualdade de gênero, pelo fim da violência sexual, física e psicológica contra a mulher. Luta pelos seus direitos, que ainda não são contemplados. Luta pela sua autonomia, e em todas as suas relações”. Helivete Ribeiro expressa o desejo de todas as mulheres, que é de serem respeitadas pelo sexo oposto, de serem vistas como seres humanos, que tem suas limitações, mas competência e capacidade para superar os obstáculos da sociedade.

“alguém que diz “as evangélicas feministas não acreditam que a Bíblia é a palavra de Deus” está empenhado em depreciar as evangélicas feministas e deseja, através da caricatura que criou, invisibilizar o que nós feministas evangélicas temos a dizer.”(Juliana Grabois, da Igreja Batista do Caminho)

Juliana Grabois

Juliana Grabois congregou na Igreja Missionária Evangélica Maranata, teve participação na Aliança Bíblica Universitária e atualmente congrega na Igreja Batista do Caminho, do Rio de Janeiro (RJ). Cursa Geografia na UERJ. Grabois fala sobre a sacralidade da Bíblia, de que ela transmite a Palavra de Deus ao mundo. Destaca ainda a participação humana na escrita das Escrituras, com foco na sua capacidade de contextualizar, de empregar sua própria linguagem ao escrever a Bíblia.

Seu envolvimento com o feminismo ocorreu de forma semelhante a outras mulheres. “Desde a adolescência não conseguia entender por que algumas coisas acontecem só com as mulheres e não com os homens. Depois de entrar para a universidade, entendi que havia uma relação de poder dos homens sobre as mulheres, dos brancos sobre os negros, dos ricos sobre os pobres. Então, consegui nomear coisas ruins que eu vi acontecer com minha avó, minha mãe e minhas tias. Consegui nomear, isto é, saber o que eram essas opressões e, assim, me opor a elas”, diz.

Com relação aos que propagam que as evangélicas feministas “não acreditam que a Bílbia é a Palavra de Deus”, Grabois é enfática. “Para depreciar alguém ou um grupo de pessoas específico é possível fazer uma caricatura maldosa. Uma caricatura é uma representação na qual se exagera certa característica, que é muito evidente ou é insignificante na composição daquilo ou de quem se quer representar. Portanto, alguém que diz “as evangélicas feministas não acreditam que a Bíblia é a palavra de Deus” está empenhado em depreciar as evangélicas feministas e deseja, através da caricatura que criou, invisibilizar o que nós feministas evangélicas temos a dizer. Sem contar que, eu acredito na sacralidade bíblica de uma forma, mas outras irmãs evangélicas feministas creem de outra forma. Como eu disse, o movimento feminista é plural, assim como as igrejas cristã e suas tantas denominações são plurais também”.

Nilza Valério Zacarias

Nilza Valério Zacarias nasceu em uma família de batistas e continua ligada ao movimento batista mesmo após sua maioridade. É jornalista e coordenadora do movimento Evangélicos pelo Estado de Direito. Crê que a Bíblia é Palavra de Deus. “A Bíblia é a Palavra de Deus pois assim fala de si mesma em II Tm 3:16. Foram pessoas inspiradas por Deus que a escreveram. A Bíblia nos orienta sobre Deus, sobre as coisas da vida, incluindo política e gênero. Gosto de dizer que os autores da Bíblia não eram marionetes nas mãos de Deus. Cada um escreveu dentro de suas vivências, culturas e contextos sociais.” Mesmo reconhecendo a origem divina da Bíblia, Nilza destaca o papel humano na composição da escrita. “Tenho certeza que Deus também levou em conta os sentimentos dos autores, mas o Espírito Santo orientou a cada um”, diz.

Sobre seu envolvimento com o feminismo, Nilza diz que viver a levou ao movimento. “Sou filha de uma família de classe média baixa, da Baixada Fluminense. Apesar dos privilégios que tive, eu vi e convivi nas minhas relações próximas – amigos, escola, igreja – as marcas da opressão. A dupla carga da mulher, a mulher sendo arrimo de família, e mesmo assim sem protagonismo na vida […] Sou mulher, sou negra. Só de me olhar no espelho vejo a importância de um movimento que promove condições de igualdade entre os gêneros. Enquanto, em qualquer lugar do mundo, uma mulher não puder trabalhar por não ter com quem deixar o filho, o feminismo se faz necessário. Enquanto nós estivermos morrendo e apanhando nas mãos de nossos companheiros, o feminismo é necessário. Enquanto matam nossos meninos negros, nossos filhos negros, o feminismo é necessário”.

Nilza Valério declara que Jesus trouxe dignidade para a mulher, e que é os homens que não estão seguindo o modelo dexiado por Jesus. “Quem diz que eu não acredito na Bíblia, me julga. E quem julga, comete pecado, não é? Eu gostaria que me chamassem para uma conversa, e abriríamos a Bíblia com uma mão, e com a outra o jornal do dia, os dados, as pesquisas. Veríamos, de fato, o que Jesus tem a dizer sobre”.

“Esse tipo de argumento (de que as evangélicas feministas não acreditam que a Bíblia é a Palavra de Deus) é constantemente utilizado pra tentar nos deslegitimar enquanto cristãs.” (Camila Mantovani, da Igreja Batista do Caminho)

Camila Mantovani

Camila Mantovani congrega na Igreja Batista do Caminho, do Rio de Janeiro. Acredita que a Bíblia é a Palavra de Deus. Diferente de outras evangélicas feministas, Mantovani declara que sua fé a levou ao feminismo. “A leitura machista da Bíblia sempre me pareceu completamente contraria a narrativa de Cristo, bem como ao protagonismo que as mulheres sempre tiveram no cristianismo primitivo Não faz sentido pra mim, mulher cristã, não lutar contra um sistema que nos mata e oprime. Não ser feminista seria contrário a minha fé”, expõe.

Mantovani diz que o feminismo é a “ideia radical de que a mulher é gente”. Segundo ela, a importância do feminismo para quem é mulher é total. “Viver subjugada, com medo, com seu corpo sendo controlado, violentado, com altos índices de violência de gênero não te deixa muita escolha […] O feminismo aparece como resistência a um sistema que constantemente planeja sua morte”, expressa Mantovani de forma realista. É o sentimento de inúmeras mulheres, e não apenas de quem tem algum tipo de envolvimento com o feminismo, deve-se considerar.

Mantovani também se manifesta contra o argumento de que as “evangélicas feministas não acreditam que a Bíblia é a Palavra de Deus”. “Esse tipo de argumento é constantemente utilizado pra tentar nos deslegitimar enquanto cristãs. Deve incomodar muito mesmo pros homens que sempre utilizaram a Bíblia pra manter seus privilégios, agora serem confrontados com a mesma por nós mulheres cristãs feministas. Enquanto essa gente segue nos desrespeitando e apontando o dedo pra duvidar da nossa fé, seguimos caminhando com Cristo, nas leituras da Palavra, nas orações, na luta e na resistência”.

“As pessoas que afirmam essa ideia (de que as evangélicas feministas não acreditam que a bíblia é a palavra de deus) dificilmente tiram um tempo para conversar sobre o assunto com alguma mulher cristã que defende pautas feministas”.

(Sara de Paula, jornalista)

Sara de Paula

Sara de Paula congrega na sede Igreja Evangélica Pentecostal A Família de Jesus Unida, na zona leste de São Paulo (SP). Acredita que a Bíblia foi escrita por homens inspirados por Deus. Não vê contradição em ser evangélica e, ao mesmo tempo, feminista. “Não há contradição. Os princípios bíblicos, a lei de Deus e a história de Jesus Cristo nos ensinam a defender a busca pela igualdade entre as pessoas em todo o tempo. Infelizmente algumas pessoas não estão dispostas a conversar sobre causas defendidas pelo movimento feminista […] como a luta pelo fim da violência contra a mulher, por exemplo”.

Sara de Paula manifesta-se sobre as acusações de que “as evangélicas feministas não acreditam que a Bíblia é a Palavra de Deus”. “As pessoas que afirmam essa ideia dificilmente tiram um tempo para conversar sobre o assunto com alguma mulher cristã que defende pautas feministas. Creio, acima de tudo no amor de Deus, e Ele está acima de qualquer ideologia para mim. Dentro do feminismo há muitas vertentes e os grupos são variados. Quando dizemos que somos feministas e cristãs, é necessário entender que submetemos a nossa vontade e pensamentos à luz da Palavra de Deus”.

De Paula declara “que é raro encontrar algum dos críticos dispostos a entrar no debate e apresentar tais contradições. Geralmente começam pela submissão feminina e o papel da mulher da família, mas depois de olhar para os argumentos costumam parar a discussão para manter a mesma opinião. Esse debate precisa ser influenciado de todas as formas para fortalecer um processo de esclarecimento dentro de nossas igrejas.”

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