03 Jan

Havia um ditado em sua época que dizia que não basta ser mulher de César, tem que parecer mulher de César. Dois mil anos se passaram, e ainda perpetuamos um modelo que impõe à mulher um padrão estético, comportamental e social. Este modelo pode ser claramente visto nos adjetivos apontados pela revista Veja na esposa do homem que almeja ocupar a cadeira mais importante do país. O problema não são as “virtudes” em si, mas a maneira sutil como se busca impor tal padrão, contrastando-o com o perfil da atual e quase deposta presidente da república.

Deixando de lado a “mulher de César”, sugiro que busquemos noutra mulher, aquela que nos gerou o Filho de Deus. Quem a imagina como uma mulher bela, recatada e do lar prova não conhecê-la suficientemente.

Repare em sua inspirada oração, e tente imaginá-lo nos lábios de uma dondoca:
“A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; porque atentou na condição humilde de sua serva; desde agora, pois, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas; e santo é o seu nome. E a sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem. Com o seu braço agiu valorosamente; dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos. Auxiliou a Israel seu servo, recordando-se da sua misericórdia; como falou a nossos pais, para com Abraão e a sua descendência, para sempre.” Lucas 1:46-55

Embora tivesse “sangue azul” por pertencer à dinastia de Davi, Maria viveu na simplicidade e no anonimato, casada com um operário braçal. O trono antes ocupado por seus ancestrais, agora era ocupado por um rei fantoche, marionete do império romano, cujo nome era Herodes. Seu povo vivia sob a tirania imperial. Maria era virgem, mas não ingênua. Humilde, mas não idiota. Santa, não alienada. Discreta, mas nada recatada.

Imagem relacionadaA imagem que construiu-se de Maria não faz jus à sua postura subversiva expressada neste cântico. A jovem desposada com José era uma adolescente questionadora, com um espírito rebelde e revolucionário. Sua alma anelava por mudanças. Ao receber o anúncio trazido por Gabriel, ela soube que o ente gerado em seu ventre era a resposta aos seus anelos, bem como aos anseios do seu povo.

Como que vislumbrando o futuro, Maria declarou profeticamente que Deus havia deposto os poderosos do trono, e elevado os humildes. Ela fala como alguém que vivia além do seu próprio tempo. Era como se fosse uma visitante proveniente do futuro. Para ela, tais fatos não aconteceriam um dia, mas já teriam acontecido. Deus já teria enchido de bens os famintos, e despedido vazios os ricos. Se isso não é uma revolução social, o que é, então? Os defensores do status quo preferem espiritualizar passagens como esta, para que se encaixem em sua agenda ideológica e política.

Porém, a jovem Maria não está falando de coisas estritamente espirituais, mas concretas, abrangendo a realidade sócio-econômica, política e cultural.

O nascimento de Jesus anunciava que a linearidade do tempo havia sido subvertida, de modo que o futuro invadira o presente. Aquele que Se apresenta como o Princípio e o Fim, agora vive em nosso meio. A ordem predominante teria que ser colapsada para dar vazão ao Reino de Deus. A revolução há muito esperada fora deflagrada, e aquele seria, definitivamente, um caminho sem volta. Nunca mais o mundo seria como antes.

Como todo subversivo que ameaça o establishment, Maria amargou o exílio ao lado de seu filho e esposo no Egito, onde viveram na clandestinidade até o momento designado por Deus.

Pelo cântico que compôs, dá para inferir quê valores Maria teria transmitido ao seu Filho.

Com o tempo, o cristianismo deixou sua marginalidade essencial para tornar-se em religião oficial. Maria deixou de ser vista como subversiva, para tornar-se numa espécia de padroeira do status quo. Domesticaram a mãe do Salvador. Desproveram-na de sua rebeldia. Tornaram-na inofensiva. O mesmo fizeram com a igreja cristã, que deu as costas aos pobres, humildes e oprimidos, para aliar-se aos poderosos.

Se quisermos ver as profecias de Maria cumpridas, temos que dar meia-volta, trair nossos laços com os interesses econômicos e políticos, e abraçar nossa vocação subversiva. Se Maria estava certa, e de fato, anteviu o futuro, isso eventualmente acontecerá. E quando ocorrer, o Natal passará a ser celebrado como uma data revolucionária, como é a celebração da revolução francesa ou da inconfidência mineira.

Pr. Hermes C. Fernandes. 

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